Costurando

 Aqui, neste espaço, buscarei relacionar todos os fragmentos publicados no blog, na página 'retalhos'...


Pois, de que adianta a publicação de fragmentos soltos? Considero todos estes fragmentos importantes, porém, para que 'o todo' faça sentido, é preciso relacionar os diversos elementos que o compõe. Por isto o título, 'costurando'. Esta página funcionará como uma sala de costura. Irei trabalhar, com cuidado, em cima destes pequenos retalhos, transformando-os numa bela colcha colorida!

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28 de janeiro de 2011
Depois de um longo período 'em off', retorno ao emaranhado dos meus pensamentos. Momento de pausa. Reflexão (e avaliação!). 2010... um ano com intensas transformações e fortes processos de amadurecimento. Minha formatura em janeiro, no curso de licenciatura em Artes Visuais. Meu ingresso no curso de Arqueologia.. e junto com este ingresso muitas janelas e portas se abrindo. Grandes descobertas. Na transição dos semestres, acontecimentos muito fortes: O meu interesse pela temática indígena -  o que determinou muitos aspectos da pesquisa - e uma perda inesperada (inesperada desde que eu nasci, o que sempre temi), a partida do meu pai. Com isso, grandes descobertas.. Com sua partida, sei que ele continua aqui, dentro de mim, em tudo aquilo que aprendi observando-o. E isto, está diretamente implicado na minha pesquisa... Um trabalho que, no final das contas, vai falar de valores, de ética e de envolvimento. De sentimento também. Ciência e sentimento não são palavras que cabem juntas, eu sei.  Mas quero atravessar essas fronteiras. Claro que, com certas limitações. Intensidade, transformação e a constante busca por aquilo que acredito. 
Antropologia... meu horizonte. Fotografia... meu norte. Envelhecimento... meu foco. 
No final do ano, uma tentativa fracassada de voar mais alto. 
2011 já começou com todo o gás. Cinecipó. 1° festival de Cinema Sócio-Ambiental. 1°  vôo. Oficina de documentário. Cheiro de manjericão no carro. Santa pizza! Lilipepebiju! Experiências que ficaram impressas! E novos estímulos... E no retorno, uma conversa informal denuncia questões importantes: No Haiti o tratamento para a velhice se dá de forma semelhante a que ocorre entre os indígenas. No Candombe também. Ou seja.. a nossa cultura é que está distorcida, é o espelho do comportamento norte-americano capitalista. Culto ao novo. Descarte do que já passou do momento. E com isso, esvaziamento.. Temos muito o que aprender, é fato. E podíamos começar apreciando aquilo que não tem utilidade alguma. Aprendendo a viver o agora. 
Carpe Diem! - estou só (re)começando!

Roberta Cadaval


A árvore inútil

“Os que vivem sob a compulsão da utilidade buscam algo inatingível.
Quem vive sob a graça da inutilidade não quer chegar a lugar algum.
Como no fruir de um poema, o prazer mora no descompromisso.
Terceiro dos grandes mestres do Taoísmo, Chuang-Tzu, a ele se atribui esta estória.  
Nan-Po Tzu-ki atravessa a colina de Chang. Ele percebeu uma árvore surpreendentemente grande. Sua sombra podia cobrir mil carroças com quatro cavalos.
- Que árvore é essa?, pergunta-se Tzu-ki. Para que pode servir? Olhando-a de baixo, seus pequenos ramos curvos e torcidos não podem ser transformados nem em vigas nem em cumeeiras. Olhando-a do alto, seu grande tronco, nodoso e rachado, não pode servir para fabricar coisa alguma, nem mesmo ataúdes. Aquele que lamber suas folhas ficará com a boca ulcerada e cheia de abcessos. Só de sentir seu cheiro fica-se logo tonto e embriagado por três dias.
Tzu-ki conclui – Esta árvore não é realmente utilizável e, por essa razão, conseguiu atingir tal porte. Ah! O homem divino, por sua vez, não passa de madeira que não pode ser utilizada.


Desta árvore solitária e extraordinária na colina de Chang eu me lembro ao ler a notícia sobre um homem tão solitário quanto e muito mais extraordinário que ela... Só podia ser o homem divino a que se referia Chuang-Tzu. O seu nome: Takeshi Nojima. Imigrante japonês, com 80 anos, já vendeu tomates, criou bicho-da-seda e foi dono de mercearia. Preparava-se para prestar vestibular de medicina. E ele se explicava: “Parte de minha vida passei cuidando dos meus pais. Outra parte cuidando dos meus filhos. Chegou, finalmente, a hora de cuidar de mim mesmo. Sempre sonhei em estudar medicina. Quero agora realizar o meu sonho.”

Meu primeiro impulso foi o de rir ante a loucura de um velho. Será que ele não sabe somar os anos? Será que ele não tem consciência dos limites da vida?

Mas logo, um sopro de sabedoria me salvou. Sorri. E pensei: “É claro que ele sabe de todas as coisas. É claro que ele sabe que, provavelmente, não haverá tempo para o exercício da sua profissão. Ele sabe que tudo é inútil. E, a despeito disso, o faz. Inútil como aquela árvore que não vivia pelos usos que pudesse ter, mas pela pura alegria de ser.”

Utilidade. Colheres, facas, vassouras, alicates, martelos, palitos, pentes, escovas: são todos úteis. Sua razão de ser é aquilo que se pode fazer com eles. São ferramentas, meios, pontes, caminhos para outras coisas diferentes deles... Em si mesmos, não dão nem prazer nem alegria a ninguém.

Inutilidade. A sonata de Domenico Scarlatti que ouço tocada ao cravo, enquanto escrevo esta crônica. O pequeno poema de Emily Dickinson que repito de cor. O cálice de licor que bebo. As ninféias de Monet sobre que se demoram meus olhos. O bonsai de que cuido. A pipa na mão do menino. A boneca no colo da menina. A mão querida que me toca. Não servem para nada. Não são ferramentas úteis para realizar tarefas. Nem são caminhos ou pontes. Quem tem essas coisas não precisa de ferramentas, pois com elas cessa o desejo de ir. Não é preciso ir, porque já se chegou lá, no lugar da alegria. O prazer e a alegria moram na inutilidade.

E pensei então que aquele homem divino ia fazer o seu curso de medicina como quem escreve um poema, ou toca uma sonata, ou planta um bonsai, ou empina uma pipa, por nada, pelo puro prazer de ser.

Os que vivem sob a compulsão da utilidade trabalham. E o tempo todo estão em busca de algo inatingível que se encontra depois de terminada a tarefa, ao fim do caminho, do outro lado da ponte, e que se afasta sempre.

Os que vivem sob a graça da inutilidade não querem chegar a lugar algum. Porque já chegaram. Quero ficar na sonata, no poema, no licor, nas ninféias, no bonsai, na pipa, na boneca, na mão que me toca. Por isso amo as pessoas divinas, árvores solitárias na colina, madeira que não pode ser utilizada. Amo aqueles que se entregam a gestos loucos e inúteis – pela pura alegria de ser. Amo aquele imigrante japonês desconhecido, que se plantou como bonsai, num gesto em tudo parecido ao gesto poético de um outro homem divino, da mesma raça, Hokusai (1760-1849), ao se aproximar da gloriosa idade de 80 anos.
Eis o que ele escreveu: Desde os 6 anos tenho mania de desenhar a forma das coisas. Aos 50 publiquei uma infinidade de desenhos. Mas tudo o que eu produzi antes dos 70 não é digno de ser levado em conta. Aos 73 anos aprendi um pouco sobre a verdadeira estrutura da natureza dos animais, plantas, pássaros, peixes e insetos. Com certeza, quando tiver 80 anos, terei realizado mais progresso; aos 90, penetrarei no mistério das Coisas; aos 100, por certo, terei atingido uma fase maravilhosa e, quando tiver 110, qualquer coisa que fizer, seja um ponto ou um linha, terá vida.

Vejo, no alto da colina de Chang, não uma árvore, mas duas. Suas idades somam 160 anos. Elas conversam e se sacodem de tanto rir. Falam sobre os próximos 160 anos que se seguirão...”
 
Rubem Alves
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