segunda-feira, 28 de junho de 2010

Sobre as coisas simples

Porto Alegre, 28 de junho - 22h45min

Sabe quais são as coisas simples de que falo?
ver, o tocar, o escutar, o aprender, o sentir.. e o perceber.
É impressionante o quanto podemos aprender através das coisas mais simples.
Um valor. Uma cultura.
É impressionante a forma como isso pode nos afetar.
Causar emoção, trazer lágrimas aos olhos.
Vim para Porto Alegre para participar do 'I Fórum Internacional sobre a temática Indígena'.
Hoje houve uma mesa redonda com quatro indígenas - e estes... fizeram brotar lágrimas.
Uma fala pausada, tranquila, tão bacana de escutar.
Outro ritmo.
Contrário da esquizofrenia presente na sociedade contemporânea.
Primeiro, porque temos tempo - falta de - ?
Mal começou já tem de terminar?
Eles não nos entendem... mas de fato, alguma vez paramos para refletir sobre isso?
E nós, conseguimos entendê-los?
Exercício de relativização...
Tudo foi muito bacana, os relatos dos indígenas, as palestras (em especial a da Márcia Bezerra!), mas o que mais me provocou hoje foram as falas de dois dos indígenas que palestraram, Claudine e o Cacique. Eles falaram dos velhos. Dos seus velhos. Para eles, os velhos são uma biblioteca, são eles quem guardam suas tradições... na memória. A forma de consulta? Através dos relatos, das conversas... sem hora para acabar!
Para conseguirem viver no caos das cidades, eles consultam 'seus' velhos... e só assim conseguem 'manter o foco'.
Temos muito o que aprender com eles, principalmente sobre a forma como referem-se àos mais velhos da aldeia.
Isso me faz pensar sobre o que fazemos com 'os nossos' velhos... coisificando-os. 
Deixo aqui um convite à reflexão, sobre como nos relacionamos com o mundo, com as coisas e com as pessoas a nossa volta...

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Tempus fugit

Este espaço destina-se a guardar fragmentos, fragmentos de memórias quase esquecidas...
O objetivo deste blog, a priori, será o de funcionar como uma espécie de extensão do meu projeto de pesquisa, que tem como foco questões sobre envelhecimento, imagem e relações com os lugares. Aqui, colocarei lembranças das histórias de vida  - suscitadas a partir de conversas e imagens - de algumas pessoas com quem venho conversando. Irá tratar sobre coisas simples, mas intensas, trajetórias de vidas, tão importantes para a consituição dos sujeitos enquanto seres contidos no mundo. E quanto a esta simplicidade, muito bem nos fala Rubem Alves...


COISAS SIMPLES QUE COMOVEM:  Coisas extremamente simples acham um lugar imortal no coração. Há dias, conversando com os meus filhos, encontrei-me com elas, as coisas simples. O Sérgio me contou sobre quando ele era menino, tempo em que eu ainda fumava cachimbo. “Você viajava, eu ficava com saudade. Ia para o seu escritório que estava impregnado com o cheiro bom de fumo de cachimbo, perfumado. Era o meu jeito de matar a minha saudade...” O Marcos, por sua vez, me lembrou um incidente muito engraçado. Eu e ele estávamos no banco. Eu preenchia as guias de depósito, distraído. Enquanto isso ele examinava os cheques, sem que eu percebesse. Aí ele notou que as assinaturas estavam muito feias ( eram cheques de uma outra pessoa) e  se prontificou a me ajudar, melhorando-as. Pegou uma caneta e mãos à obra. Quando percebi já era tarde demais. Não sabia se ria, se chorava, se ficava bravo... Felizmente o gerente foi compreensivo e tudo terminou bem. Isso é uma das delícias de conversar com os filhos. A conversa é um ritual mágico que ressuscita memórias há muito enterradas. (Rubem Alves, Quarto de Badulaque L, IN http://www.rubemalves.com.br/quartodebadulaquesL.htm)